Crítica: Tyler, the Creator | Flower Boy

Ou o rapper realmente se redimiu, ou temos a grande trollada de 2017

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 21 de julho de 2017

Após várias declarações e composições homofóbicas e misóginas em discos como Goblin (2011) e Cherry Bomb (2015), Tyler, the Creator pede desculpas.

Em tempos em que a internet eterniza a associação entre pessoas e declarações, já que, afinal, não há contato visual nem percepção empírica dessas relações, quando se trata de um discurso que faz parte do escopo musical, a dinâmica é outra.

As batidas e o esquema de rimas agravam ou amenizam a mensagem. No caso de Tyler, claro, há algumas contrapartidas. Se em “AssMilk” (lá do seu EP Bastard, de 2009) ele usou o termo ‘faggot‘, tão pejorativo quanto chamar um homossexual de ‘bicha’ por aqui, a partir de uma base cheia de tensão, existe outro fator pouco levado em consideração: a personalidade de Tyler.

Por trás de tuítes polêmicos e canções misóginas/homofóbicas, do que se trata essa personalidade? É um jovem espivetado? Um cara que aprendeu o que havia de pior com a lição das ruas? Um sujeito que só quer chamar atenção?

Benefício da dúvida

Todas essas questões só são elucidadas devido ao novo disco dele, Flower Boy.

Deixando a verborragia de lado, o rapper confessa até estar ‘beijando caras brancos desde 2004‘, como canta de um jeito estranhamente natural em “911/Mr. Lonely”.

O benefício da dúvida a artistas como Tyler é praticamente uma premiação. Só por isso, Flower Boy já desponta como seu disco mais interessante até então.

Mas, parte de seu contexto não pode ficar oculto.

Antes de lançar channel ORANGE, em 2012, Frank Ocean, parceiro do coletivo Odd Future, revelou que tinha se apaixonado por um garoto na adolescência. Depois disso, se desvinculou aos poucos do grupo de qual Tyler era o líder principal, assumindo um lado ainda mais melancólico, mais soulful, talvez até mais verdadeiro consigo mesmo (como se percebe em Blonde).

Já no início, Flower Boy põe a questão: ‘quanto custa ser mais cool que os outros até que eu me afaste de meus fãs?‘, questiona Tyler em “Foreword”. Os backings de Rex Orange County levam o músico a um soul nebuloso. Aquilo é apelação: se a ideia era ser convincente, olha… Ele consegue, porque “Foreword” é uma baita canção, que termina num tipo de drone sinestésico.

Na seguinte, “Where This Flower Booms”, mais um verso que poucos associariam a Tyler: ‘diga a essas crianças negras que eles podem ser o que quiser‘. Talvez seja o impacto de um filme como Moonlight (vencedor do Oscar este ano), reforçada pela presença de Frank Ocean soando como uma parte do indivíduo Tyler tomando um ar, sentindo-se livre.

Quando chega “See You Again”, já temos uma canção de amor de Tyler. Isso mesmo, nos moldes de um Q-Tip sentimental, ao lado da doçura de voz de Kali Uchis. Seu vocal enérgico, aqui, é a justaposição de seu lado sentimental, tratado sempre como se fosse uma pilhéria.

E se tudo for uma piada?

Se Tyler está ou não mandando a real com este disco, temos que esperar. Como bem disse um jornalista do Guardian, se ele voltar a cantar do jeito que fazia antes, seria a trollada de 2017.

Pois, mesmo quando ele volta à sua base, em “Who Dat Boy” (com A$AP Rocky), evita xingamentos que ele não pouparia em trabalhos anteriores.

Essa união do agressivo com o confessional atinge a máxima em “911/Mr. Lonely”, onde deixar no ar que toda aquela verborragia do passado vinha de seu lado mais obscuro da criatividade: a solidão. Isso depois do clamor de “Boredom” (‘ache algum tempo para fazer alguma coisa‘) e um tipo de investigação da consciência na psicodélica “Garden Shed”.

A qualidade do que Tyler nos entrega em Flower Boy faz com que o benefício da dúvida realmente valha a pena. Somente nos apresentando seu lado mais vulnerável podemos contemplar um artista livre de amarras.

Se nos permite uma analogia poética, a flor desabrochou e um aroma tomou o ar de beleza. Como não temos contato com essa planta, não sabemos se dali saiu perfume ou odor.

Enquanto a interrogação não se revela uma afirmação, contemplamos uma das obras mais interessantes de 2017.

Surpreendente8
Tracklist:

01 Foreword (Ft. Can & Rex Orange County)
02 Where This Flower Blooms (Ft. Frank Ocean)
03 Sometimes...
04 See You Again (Ft. Kali Uchis)
05 Who Dat Boy (Ft. A$AP Rocky)
06 Pothole (Ft. Jaden Smith)
07 Garden Shed (Ft. Estelle)
08 Boredom (Ft. Anna of the North, Corinne Bailey Rae & Rex Orange County)
09 I Ain't Got Time!
10 911 / Mr. Lonely (Ft. Frank Ocean & Steve Lacy)
11 Droppin' Seeds (Ft. Lil Wayne)
12 November
13 Glitter
14 Enjoy Right Now, Today

Melhores Faixas: "Foreword", "Where This Flower Blooms", "I Ain't Got Time!", "911 / Mr. Lonely".
8

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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