Crítica: Thundercat | Drunk

Virtuoso baixista vai ainda mais longe no contraponto estilístico em 3º álbum

Gravadora: Brainfeeder
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2017
Avaliação:
6/10

Difícil definir se é mais funky ou indie, mas Thundercat nos lembra de nostalgias não vividas, misturando o passado de sons como Cymande e Prince Baby a trilhas de ficção científica dos anos 1980 de Vangelis.

Nesse meio, sua voz sonífera e o baixo marcante formam um contraponto estilístico que ganham significado com as vestimentas excêntricas da era mais megalomaníaca da disco-music, com composições enigmáticas que vão da vontade de querer ser um gato (“A Fan’s Mail”) ao estranho apreço pela morte (na sequência “Lava Lamp” e “Jethro”).

Drunk é o 3º álbum do músico de Los Angeles e mostra-o estendendo mais ramificações para o que podemos chamar de um universo próprio.

Ele poderia muito bem estender essa estética ‘apanhadora de sonhos’ para o rock – umas guitarras bem valvuladas ali em “Show You The Way” poderiam ser mais interessantes que teclados, mas tá valendo – mas deixa os alvos definidos: soul, rap, eletrônica e o funk cósmico, elementos que deixam muito bem estampados que o músico está focado em um exercício de buscar nova expressividade para a música negra (termo ruim de utilizar, mas que ajuda a deixar claro de onde muitos estilos são oriundos).

Guitarra, a não ser para fins complementares, não faz muita falta em Drunk. Na profusa jam de “Uh Uh” ele prova que baixo e piano em alta voltagem não só compensam as cordas, como oferecem muito mais swing. Se essa não for a vibe do ouvinte, tudo bem, “Blackkk” põe a eletricidade dos teclados no epicentro, onde a voz do músico parece soar como mero acompanhamento. (Na verdade não é bem assim; “Blackkk” fala da busca de um refúgio como forma de renovar o amor pela vida.)


São 23 músicas, muitas delas interlúdios, ou de menos de 1 minuto e meio. Cada uma é marcante à sua maneira, por conta da riqueza referencial.

“Jameel’s Space Run” é uma abordagem afro do Kraftwerk, até que em poucos minutos, quando o player segue com “Friend Zone”, o space-funk à lá Jimmy Castor Bunch, além de fazer com que essa transição soe gradual, cria um clima bem mais centrado às pistas.

A ginga do baixo de Thundercat é mais significativa do que seu contraponto vocal, pois lembra a todo momento o fator expressividade de Drunk. Porque antes de aprender a letra de “Them Changes” ou “The Turn Down” (com Pharrell) é a viajeira do baixo que prende o ouvinte a ponto de deixar ser levado pelas múltiplas ondas sônicas. Elas são tão preponderantes, que mesmo um rapper que costuma eclipsar as rimas em canções alheias, como Kendrick Lamar, de um jeito estranho acaba ficando em segundo plano – caso de “Walk On By”.

Por mais original e impressionante que seja testemunhar a jornada musical de Thundercat – e não há forma melhor de ir a fundo nisso do que Drunk – não dá muita vontade de repetir a experiência.

O disco é tecnicamente impecável e possui uma versatilidade que dá fôlego à sua audição. Porém a estranheza que ele gera parece ser nociva, a ponto de afastar bruscamente ouvintes que não captam como algo uníssono sua lentidão vocal com agilidade instrumental.

As músicas estão excessivamente focadas num looping nostálgico, ou algo que pareça nostálgico.

Suas letras, existenciais – mesmo que existenciais do ridículo, como em alguns casos – também sugerem que a excentricidade proposta tenha fins personalistas demais.

Todo jovem bebe, todo mundo tem curiosidades em relação à morte e recorre à tecnologia para os afazeres diários, mas quando ele reforça que tá megachapado (‘não me incomode’, diz em “Bus in These Streets”) ou quer fazer do ouvinte testemunho de suas sensações, em “Where I’m Going”, dá impressão que ele, admirado por sua técnica e estética, tenta fazer o desleixado cool que quer te cativar exatamente por ser desleixado cool. Nisso aí, ele está sendo mais indie que funky.

Regular6
Tracklist:

01 Rabbot Ho
02 Captain Stupido
03 Uh Uh
04 Bus in These Streets
05 A Fan’s Mail (Tron Song Suite II)
06 Lava Lamp
07 Jethro
08 Day & Night
09 Show You The Way [f. Michael McDonald and Kenny Loggins]
10 Walk on By [f. Kendrick Lamar]
11 Blackkk
12 Tokyo
13 Jameel’s Space Ride
14 Friend Zone
15 Them Changes
16 Where I’m Going
17 Drink Dat [f. Wiz Khalifa]
18 Inferno
19 I Am Crazy
20 3AM
21 Drunk
22 The Turn Down [f. Pharrell]
23 DUI

Melhores Faixas: "A Fan’s Mail (Tron Song Suite II)", "Friend Zone", "Inferno".
6
Artistas Thundercat

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

  1. Ariel L. Lázaro 19 março, 2017 at 15:21 Responder

    “dá impressão que ele, admirado por sua técnica e estética, tenta fazer o desleixado cool que quer te cativar exatamente por ser desleixado cool. Nisso aí, ele está sendo mais indie que funky.” Hahaha, acertou em cheio. Tô digerindo o álbum ainda, bem “viajado”.

    • Tiago Ferreira 20 março, 2017 at 16:45 Responder

      Sim, apesar da nota regular, não quer dizer que o álbum não deva ser apreciado. O fato de ser ‘viajante’ é um baita ponto a favor. Só não acho que é isso tudo.
      Valeu pelo comentário, um abraço!

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