Crítica: The Afghan Whigs | In Spades

Incertezas e sensações que se alteram e martelam, martelam, martelam

Gravadora: Sub Pop
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

Seja ou não fã de longa data do The Afghan Whigs, In Spades vai causar uma sensação de estranhamento em você.

Uma primeira audição dá a entender que ele é filho direto de Black Love (1996), considerada por muitos a obra-prima da banda por mostrar Greg Dulli como porta-voz de paixões disfuncionais e da destreza proveniente do sexo, das drogas e da violência.

A capa demoníaca em preto-e-branco do 8º álbum da banda de Cincinnati (EUA) reforça o lado obscuro que ressurge de tempos em tempos.

As músicas falam de sexo (“Arabian Heights”), flertam com termos ocultistas (“Demon in Profile”) e narram sensações de perdição – seja interna ou externa, como canta Dulli sob pesados riffs em “Copernicus”.

Estranho por quê?

Mas o estranhamento não está aí. Dulli soa mais lacônico, deixando a música jorrar sangue sobre o ouvinte.

Perca de tempo enumerar as referências: soul, R&B e grunge continuam parte do escopo sonoro do Afghan Whigs, mas são as palavras e a falta delas que fazem de In Spades um álbum corrosivo.

Se fosse lida a seco, sem corpo musical, “Toy Automatic” soaria como um haicai da desilusão: ‘Muito cedo/Muito tarde/Completo’. Nos minutos finais de um pós-punk abrasivo, o vocalista se questiona se tudo aquilo que ele sente é real.

“I Got Lost” transporta essa dúvida para quatro paredes. Parece música melancólica, mas quem conhece bem o Afghan Whigs sabe que nenhuma outra banda doma a complexidade e a devassidão com requinte tão misterioso quanto eles. Ainda assim, a dúvida: os backings seriam espíritos alertando o cantor a esquecer alguém ou seriam apenas o barulho externo do que está abafado do lado de fora de um cubículo que serviu de palco para o ato sexual?

Não é só uma música que traz essa sensação. Essas dúvidas permeiam os 37 minutos de In Spades e têm a ver com a atmosfera caótica e enigmática que não abandona o disco um só segundo.

O que está posta é uma confusão no sentido dos ouvintes: ele pode ter traços de Black Love, pode ser o túnel quilométrico da tristeza, testes para a memória, o radicalismo do que se tem de mais mundano no ser humano… Pode ser 8, pode ser 80, pode ser 800.

Isso não muda o fato de que o mistério não está na inovação poética e nos recursos técnicos da música: está no todo, a partir de elementos imperceptíveis que martelam, martelam, e não nos leva à conclusão alguma. Taí a justificativa pro diabo da capa.

Muito bom8.5
Tracklist:

01 Birdland
02 Arabian Heights
03 Demon in Profile
04 Toy Automatic
05 Oriole
06 Copernicus
07 The Spell
08 Light as a Feather
09 I Got Lost
10 Into the Floor

Melhores Faixas: “Arabian Heights”, “Copernicus”, “Into the Floor”.
8.5

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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