Crítica: Thaíde | Vamo que Vamo que o Som Não Pode Parar

Rapper cobra coletivismo, mas centra mesmo é na 1ª pessoa em novo disco

Gravadora: Apenas Produções
Data de Lançamento: 16 de junho de 2017
Avaliação: 5,5/10

Nenhum outro cantor brasileiro representa tão bem os quatro elementos do hip hop como Thaíde. Como canta em “Hip Hop Puro”, ele participou do embrião do movimento no centro de São Paulo, com o parceiro DJ Hum – com quem gravou diversos singles e discos do final dos anos 1980 até 2000.

Na canção de seu novo álbum solo, Vamo que Vamo que o Som Não Pode Parar, ao cantar ‘hoje tá faltando hip hop na veia’, Thaíde sabe muito bem do que está falando.

Ele diz que não vê o break nas ruas e que o movimento do graffiti tomou uma proporção que extrapolou o campo do hip hop. ‘Nem se pensava em videoclipe/A levada do rap era bem mais simples’, relembra no refrão.

Para quem cativou milhões com uma música chamada “Sr. Tempo Bom”, a nostalgia é praticamente parte da representatividade de Thaíde.

Muro entre passado e presente

Comparando com os primórdios, realmente muita coisa mudou no rap nacional. E essa integração que foi se perdendo com o passar dos tempos é prova de que a ‘evolução’ que tanto se associa ao hip hop tem lá seus lados ruins.

Só que Thaíde levou a sério demais essa delimitação entre passado e presente, erguendo um muro separatista ainda maior.

Em “Batam Palmas”, por exemplo, com participação de Kurtis Blow, ele pede para que as pessoas celebrem como se estivessem naquelas festas do Brooklyn dos anos 1970. Em “Só1Tiro!” (com Pump Killa), o sampler de “I Shot the Sheriff” ofusca qualquer proposta de beat moderno. Nada ofensivo por parte do músico, mas é como se ele ignorasse a passagem do tempo que levou, por exemplo, a um discurso mais politizado.

A vantagem é que o uso esperto do tempo por parte de Thaíde ultrapassa a nostalgia. Se na primeira parte ele recobra o passado, a partir de “Povo de Aruanda” as coisas até entram no eixo – não por se atualizar no presente, mas principalmente por não evocar tanto o passado.

Em “Povo de Aruanda”, ele fala de crenças religiosas. Sucede, então, uma canção que evoca ainda mais a 1ª pessoa de Thaíde: “Vida”, onde diz: ‘tive uma visão pra encontrar uma saída’. Seria das drogas, da criminalidade, do mau caminho? Opa, pera lá, o passado já foi passado a limpo na primeira metade. Aqui, Thaíde mostra que a correria continua mesmo com toda a consagração no rap: ‘Se disserem o não/Eu vou batalhar o sim’.

Ao ouvir “Batida Diferente”, você perceberá o motivo de Thaíde falar tanto do passado. Em uma canção que tem propósito de sugerir algo inovador, o batidão dá falsa ideia de futurismo à clássica proposta de fazer o público dançar nas pistas. O refrão robótico de Ana P. tem clara influência do funk carioca, mas peca pela falta de criatividade na rima principal.

Cara ou coroa

Não à toa, na penúltima canção, “Curtir na Moral”, ele chama o comparsa das antigas Xis – e um dos representantes da nova geração, Terra Preta­ – para dar uma nova abordagem ao que ele já dizia em “Malandragem Dá Um Tempo”: não é necessário entrar em confronto violento; a ideia é ficar de boa com os camaradas, tomando umas, porque ‘o que importa é sempre curtir na moral’.

Tranquilo, nostálgico e positivista, a obra de Thaíde lida com a mudança como dois lados diferentes da moeda. Cara ou coroa, seu discurso pacífico ganhou novas tonalidades, mas não perdeu de vista o indivíduo: que ele seja sossegado, procure o melhor para si e, de preferência, apareça nas festas de rap com a galera.

Leia também: As 30 melhores músicas do rap nacional nos anos 1990

Médio5.5
Tracklist:

01 Minha Escola
02 Só1Tiro! (Ft. Pump Killa)
03 Acelera o Ritmo
04 Hip-Hop Puro
05 Batam Palmas (Ft. Kurtis Blow)
06 Liga Pra Mim (Ft. Rodriguinho)
07 Povo de Aruanda (Ft. Funk Buia & Ieda Hills)
08 Vida (Ft. Arnaldo Tifu, Ieda Hills, Mael Maria & Pump Killa)
09 Batida Diferente (Ft. Ana P.)
10 Curtir na Moral (Ft. Terra Preta & Xis)
11 Stilo (Ft. Ana P., Black Alien, Don Cesão, Marcelo D2, Ndee Naldinho, RAPadura & Rincon Sapiência)

Melhores Faixas: “Povo de Aruanda”, “Stilo”.
5.5
Artistas Thaide

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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