Crítica: Spoon | Hot Thoughts

Um som diferente, mas não tão diferente assim das bandas indie

Gravadora: Matador
Data de Lançamento: 17 de março de 2017
Avaliação: 6/10

Desde que o indie passou a ser um termo aceito nas pistas de dança, começou uma onda de bandas bobinhas, como Two Door Cinema Club e Kaiser Chiefs. Naturalmente algumas bandas consideradas ‘salvadoras do rock’ caíram nessas amarras, vide Arctic Monkeys e The Strokes, que, de diferente mesmo, só conseguiram respaldo da mídia (basicamente, NME).

O Spoon se encaixa nessa vertente, mas seria injusto relegá-los a uma prateleira.

Estética já não é novidade pra eles: entre o funk, krautrock e synth-pop, a banda liderada por Britt Daniel doma um estilo de groove espacial viciante.

Tem sido assim desde Ga Ga Ga Ga Ga (2007), e é bom que tenha seguido uma evolução natural até Hot Thoughts.

Guitarras vs. synths

O começo, com a faixa-título, é um pop em que a linha retilínea de sintetizadores disputa os holofotes com riffs de guitarra.

A seguinte, “Whisperl’Illistentohearit”, é ancorada sobre um leve clima de tensão, quebrado pelas linhas de guitarra e baixo em ritmos perpendiculares. Termina numa jam indie-rock, com todos os clichês do gênero, mas vamos dar um ponto à forma com que o Spoon conecta esses universos: do thriller ao rock dançante, poucos seguem trajeto tão original como eles.

Os curtos solos da guitarra de Rob Pope podem ser encarados como comemorativos – o pecado só estaria na extensão dessa comemoração, que poderia ser mais longa.

Pope não é bem o guitarrista que você escalaria para seu dream-team de rock, mas ele merece ser elogiado pela justaposição – que, na verdade, explica e muito a originalidade do Spoon.

“Do I Have to Talk You Into It” ganharia contorno cósmico mais potente se os riffs dinamizassem e extrapolassem a saturação dos teclados, mas nem todos podem ser Carlos Alomar (guitarrista de David Bowie a partir da Trilogia de Berlim) ou Robbie Krieger (The Doors).

Pop igual, mas diferente

Nas investidas mais pop, como em “Can I Sit Next to You”, o Spoon forma ganchos rítmicos que misturam referências do reggae e slow-funk.

Com os gritos e urros de Britt, o ouvinte logo é capturado pra dançar, sensação que se solidifica com a extensão de notas do teclado.

“Tear It Down” também tem forte veia pop, mas tá mais pra uma balada com riffs aleatórios. Balada, balada mesmo é “I Ain’t The One”, com efeitos do piano elétrico típicos do jazz sessentista aproveitados tal qual um piano tradicional. A simbiose com a voz barítono-meio-falho de Britt funcionou, embora os trejeitos apontem que o objetivo fosse outro: ter um momento a dois nas pistas.

De todas essas, a que cumpre melhor a mira pop é “Shotgun”, que, isolada, se destacaria numa playlist qualquer de novidades indie. Tem pegada, tem riffs cavalgantes e uma linha efetiva de baixo e synths. Ela se sustenta por pausas, mas nada que não seja de fácil assimilação aos passos.

Mesmo com a vontade de fazer um misto entre fusion e free-jazz, com “Us”, ou seguir uma linha mais psicodélica, em “Pink Up”, o Spoon deu mais um atestado de que não é uma banda pra ser levada a sério, e que não tem problema algum com isso.

Com uma galera, umas biritas e som alto, Hot Thoughts até que cai bem.

Bom6
Tracklist:

01 Hot Thoughts
02 WhisperI’lllistentohearit
03 Do I Have to Talk You Into It
04 First Caress
05 Pink Up
06 Can I Sit Next to You
07 I Ain’t the One
08 Tear It Down
09 Shotgun
10 Us

Melhores Faixas: "WhisperI’lllistentohearit", "Shotgun".
6
Artistas Spoon

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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