Crítica: Run the Jewels | Run the Jewels 3

O rap da era Trump é urgente e sagaz – e não há exemplo melhor disso do que um álbum de Killer Mike e El-P

Gravadora: Run the Jewels, Inc.
Data de Lançamento: 24 de dezembro de 2016

Run the Jewels 3 é a América em chamas, torrando o bom senso, os mitos capitalistas e a má escolha de seus eleitores.

Certamente as eleições de Trump instigarão rimas agressivas ao longo de 2017 (ou até o mandato dele acabar), mas Killer Mike e El-P merecem o crédito do timing – o mesmo timing que fez de Run the Jewels 2 a manifestação mais idônea contra a guerra entre policiais brancos e cidadãos negros, em 2014.

O ínterim entre RTJ2 e RTJ3 permite compreender o fenômeno da vitória de Trump.

“Close Your Eyes (and Count to Fuck)” pôs na roda de discussão que a latente guerra entre ricos versus mais pobres e entre brancos e negros não seria dissipada com a “promessa de esperança” de Obama.

A sociedade, na real, estava se definhando em mais preconceito. E isso acontece em todos os cantos, vide Brexit, impeachment e memes horrendos contra Dilma, um ditador filipino que promove matança generalizada no próprio país…

RTJ3 é ainda mais político que o antecessor. Em “Talk to Me”, a dupla lista a quantidade de absurdos da nova política como forma de questionar: ‘sério que é isso que vocês querem?’.

Lançada após as eleições norte-americanas, “2100” é a reação diante da derrota. Com ajuda da produção de BOOTS, Mike tenta passar uma escova na sujeira do ódio. Ele não menciona nenhum nome, mas aí vem aquela conexão de RTJ2: o negativo não está em depositar as esperanças num sujeito de declarações estapafúrdias; ele está incrustado na sociedade belicista e egoísta (falo especificamente dos norte-americanos), que recorre à violência sob um deturpado discurso de seguridade.

A defensiva de “2100” é apenas o escudo de guerreiros que não têm medo do recuo. Acontece justamente o contrário: em “Don’t Get Captured”, a filosofia do personagem Ferris Bueller, sob o som de guitarras à lá Eddie Hazel, é ambientado em ruas perigosas, com alto índice de criminalidade.

Em entrevista ao Entertainment Weekly, Killer Mike e El-P contaram que não saem por aí procurando os melhores nomes para colaborar no disco. É algo difícil de acreditar, visto que todos eles transcendem a perspectiva pulsante do RTJ. Em “Hey Kids (Bumaye)”, Danny Brown surge tão eufórico como um Flavor Flav em seus melhores anos. “Thieves (Screamed The Ghost)” ganha contornos de dramaticidade com o refrão de Tunde Adebimpe (TV On The Rádio) e “Thursday in The Danger Room” fala sobre paciência no diálogo, começando com uma produção eletro-bass-distorcida e finalizando com ligeiro solo do sax de Kamasi Washington (dava tempo pra mais, mas tudo bem).

A dupla de rappers costuma compor as canções “em um mesmo lugar” – ou seja, nada de pega um verso daqui, ajusta dali. Isso prova que a espontaneidade é a premissa do projeto que “faz com que eu sinta 10 anos”, segundo El-P.

A efervescência do momento é que faz com que o álbum soe tão verossímil às conturbações de agora.

Uma frase do produtor na última canção, “A Report to The Shareholders/Kill Your Masters”, sintetiza a coisa toda: ‘Sou livre cara, e um puta dum hostil‘. Killer Mike surge com a voz do subconsciente, insistindo ‘mate seus chefes‘, até que Zack de La Rocha vem para por mais fogueira em tudo. Se trocasse essa dinâmica toda por instrumentos, diria que se trata de free-jazz. Isso pouco importa. Porque, num caso ou em outro, trata-se do uso sagaz da liberdade de expressão.

Ótimo8.5
Tracklist:

01 Down (ft. Joi Gilliam)
02 Talk to Me
03 Legend Has It
04 Call Ticketron
05 Hey Kids (Bumaye) (ft. Danny Brown)
06 Stay Gold
07 Don't Get Captured
08 Thieves! (Screamed the Ghost) (ft. Tunde Adebimpe)
09 2100 (feat. BOOTS)
10 Panther Like a Panther (Miracle Mix) (ft. Trina)
11 Everybody Stay Calm
12 Oh Mama
13 Thursday in the Danger Room (ft. Kamasi Washington)
14 Report to the Shareholders/Kill Your Masters (ft. Zack de La Rocha)

Melhores Faixas: "Legend Has It", "Hey Kids", "Don't Get Captured", "2100", "Report to the Shareholders/Kill Your Masters".
8.5

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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