Crítica: niLL | Regina

Conversas com a mãe falecida e anotações de um cotidiano complicado num diário de rap com influência da vaporwave

Gravadora: D’sgueio/SoundFoodGang
Data de Lançamento: 24 de julho de 2017
Avaliação: 8.5/10

Os tempos efêmeros de internet fizeram com que um movimento musical surgisse e já fosse ‘morto’ rapidamente. É o que muitos têm dito sobre a vaporwave, estilo lo-fi que conecta sons nostálgicos, alguns orientais e pouco usuais, a um esquema tosco de produção.

Seu auge foi ali em 2011 e 2012, mas, se depender do rapper de Jundiaí (SP) niLL, ainda há muito a absorver dentro dessa estética.

Regina, seu segundo disco, bebe diretamente dessa fonte. Em entrevista ao canal Rap Cru, ele disse que pensa as rimas dentro do segmento de batidas. Como ele não é um beatmaker profissional, o vaporwave acabou se encaixando dentro daquilo que ele imagina suas canções.

Dedicado à falecida mãe, Regina retrata o cotidiano tal qual ele é: com sentimentos que se perdem ou se reafirmam por mensagens de WhatsApp ou pela inexplicável forma de se surpreender com a paisagem ao nosso redor numa volta pelo bairro.

Conexão como refúgio

A menção à mãe já é feita em “Wi-Fi”, música em que niLL usa a conexão com um propósito espiritual para falar como as coisas estão se desenrolando em sua vida.

Em “Meliodas”, a conversa já ganha um tom mais melancólico. Nela, niLL fala de fugas em boates e conversas com algumas garotas com quem conheceu no mundão (incluindo uma que diz não gostar de coxinha).

Com participação de Victor Xamã (um dos grandes nomes do rap de Manaus), “De Novo e De Novo” é uma das páginas mais valiosas do que parece ser um diário da conversa de niLL com a mãe. As dificuldades dos percalços continuam, e é nesse bate-papo com a mãe que ele parece se ‘lavar’ das sujeiras do mundão.

A crônica de niLL também é permeada de bom humor. É exatamente nesse clima que ele conquista o ouvinte de cara, como em “Minha Mulher Acha Que Eu Sou o Brad Pitt”: com sampler de “Ashes to Ashes” (David Bowie), ele fala das desavenças corriqueiras de um ciúme inocente.

Quando ele opta por batidas mais pesadonas, como em “Jovens Telas Trincadas” e “Stay High”, percebe-se a inspiração no rap clássico dos anos 1990, como Wu-Tang Clan e Nas. É daí que surge o mote para um dos refrãos mais pegajosos de 2017: ‘Eu quero ouro pra minha pele preta/Traga mais ouro pra minha pele preta/Traga, traga‘ (em “Valete de Copas”).

Parcerias e diálogos

Mesmo focado em uma trajetória individual, Regina valoriza as boas relações das parcerias. Os já consagrados De Leve e Ogi tornam “Loopers” uma canção gigante, ainda que o tema seja fome e perrengues inerentes à cena do rap.

Em “Summer Nights”, o catarinense Makalister entra na onda vaporwave de niLL no que parece uma conversa relembrando a adolescência, até que a vida vai apresentando obstáculos aos poucos: ‘E a vida me olha torto, pede truco/E aí eu vi que nem dá pra comprar tendo do turco‘, relaciona niLL.

Para “Negro Drama II”, niLL chamou o parceiro Yung Buda, do selo SoundFoodGang, e utilizou o mesmo sampler de um clássico dos Racionais – não “Negro Drama”, mas sim “Vida Loka Parte II”, entoado sobre as linhas do melancólico trompete de Ray Davies em “Theme From Kiss of Blood”, da Button Down Brass. Com cara de hit da quebrada, a música fala de interesseiras e interesseiros e termina com aquele clássico barulho de evocação do ki, marca do desenho Dragon Ball Z.

Ótimo8.5
Tracklist:

01 452 Intro
02 Wifi
03 Meliodas
04 Minha Mulher Acha Que Eu Sou o Brad Pitt
05 Stay High
06 De Novo e De Novo (part. Victor Xamã)
07 Valete de Copas
08 Jovens Telas Trincadas
09 Loopers (part. Ogi & De Leve)
10 Atari Level 2
11 Summer Nights (part. Makalister)
12 160293 (Interlúdio)
13 Negro Drama Pt. II (part. Yung Buda)
14 Tchau Regina

Melhores Faixas:"Minha Mulher Acha Que Eu Sou o Brad Pitt", "Stay High", "Valete de Copas", "Loopers".
8.5
Artistas niLL

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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