Nanã Parú & Michel Munhoz | Concêntrico

Quatro faixas de livre improviso com baixo e bateria que sugerem futura ‘naturalidade’ da música brasileira

Gravadora: Mansarda Records
Data de Lançamento: 2 de outubro de 2014

Download gratuito pelo site da Mansarda

É possível fazer muita coisa com baixo e bateria. Não pense em algum esqueleto rítmico de rock. O que Nanã Parú e Michel Munhoz projetam em Concêntrico vai muito além de qualquer estrutura pré-concebida.

O mais recente lançamento da Mansarda Records é atônito, visceral. Não para em um só momento.

Dividido em quatro faixas, Concêntrico até pode sugerir algumas heranças musicais: pense no jazz escandinavo, no avant-garde pós-Ornette Coleman ou num tantra musical que envolva Bernard Parmegiani na órbita de Space is the Place.

Todas essas assimilações são musicalmente tortas, como manda a cartilha do selo responsável pelo catálogo mais experimental da música brasileira atualmente feita. No entanto, o modus operandi de Concêntrico, ainda que tenha baixo e bateria como protagonistas, intercala minimalismo e noise. Alguns objetos, não mencionados pela dupla, intensificam a articulação experimental.

Em alguns momentos, como na faixa “III”, parece que estamos diante de uma vitrola arranhada. Esse é o momento em que a obra atinge um momento esquizofrênico (que dialoga com sons de Cadu Tenório e DEDO), antes de terminar na assimétrica “IV”, cujo retardo rítmico da bateria é a pura deformidade inerente ao avant-garde.

É bom ficar atento antes de dizer que Concêntrico é obra difícil. Ainda que seja fruto de livre improvisação (foi gravado no Estúdio Musicotek numa única sessão, em 29 de março deste ano, em Porto Alegre), denota a franqueza estética que poucos se acossam em ao menos tentar decifrar.

Se encarado como simples exercício de ‘dois músicos que se reúnem para fazer experimentos sonoros’, a natureza de Concêntrico um dia pode ser entendida como qualquer som feito por Hamilton de Holanda ou Yamandú Costa.

Assim como há, na música, uma história da construção da identidade nacional que durou mais de meio século para ser firmada, está em processo uma desconstrução de qualquer noção identitária. Músicos brasileiros que fogem de rótulos como samba, rock, MPB e derivados formam uma cena ainda presa ao âmbito underground, mas cuja expressão é suficientemente sólida para ser interpretada como nova música brasileira, esquecendo qualquer noção do que já foi explorado antes em nossas terras.

É daí que Concêntrico se manifesta; como a naturalidade de um movimento artístico não estudado, não assimilado e não reprocessado tanto em meios acadêmicos, como na indústria cultural. Nanã Parú e Michel Munhoz não oferecem essa cartilha. Tocam com a mesma inquietude que Nurse With Wound ou Som Imaginário, nos dando pistas de como futuramente a música brasileira possa fluir sem artifícios e sem ficar presa aos mesmos padrões estéticos.

Se achar estranho, insista. É ótimo8
Tracklist:

01 I
02 II
03 III
04 IV

Melhores Faixas: ouça todas.
8

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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