Crítica: Miles Mosley | Uprising

Ao lado de Kamasi e Kendrick, mais um expoente da Califórnia cheio de vigor e espiritualidade

Gravadora: World Galaxy / Alpha Pup Records
Data de Lançamento: 27 de janeiro de 2017
Avaliação: 7.5/10

Enquanto você apreciava o último disco de Fiona Apple, curtia a Compton de Kendrick Lamar, se impressionava com alguma nova funcionalidade do Facebook, ou seja lá o que você estivesse fazendo em 2012, a Califórnia preparava o embrião de um crossover entre jazz, hip hop e funk com caras como Kamasi Washington, Cameron Graves e Miles Mosley, que realizavam jam sessions que seriam materializadas alguns anos depois.

Kamasi surgiu com The Epic, em 2015. Mosley concluiu Uprising em janeiro de 2017. Ainda vem por aí o disco de Graves e Ronald Bruner Jr. (irmão de Thundercat, que por sua vez lançou recentemente Drunk. Segundo Mosley, essas seções resultaram em mais de 150 canções, incluindo as de Epic, um momento que no futuro provavelmente será considerado chave para entender o jazz do século XXI.)

Mosley é baixista e vocalista. Se autodefine como o cara que “sabe quando pular e quando atacar”, comparando com o estilo de jogar do lutador Sagat, do Street Fighter. “Acontece o mesmo comigo com o baixo – eu mantenho-o reservado, mas quando vejo uma fraqueza, recorro às distorções de pedais e vou pra matar”, brincou o músico, em entrevista ao LA Weekly.

Seu disco, Uprising, é repleto desses efeitos. Tão volumoso quanto The Epic no quesito expressão, o álbum tem uma veia pop que mira outro tipo de público – mais abrangente, menos fixado à ideia de tradição musical (alvo que adoram impor aos jazzistas, Kamasi incluso) e mais cantarolável.

Uprising é mais Gary Clark Jr., John Legend e Benjamin Booker que qualquer outro desses novos artistas da Costa Oeste norte-americana. Isso não dá pista nenhuma sobre o que Uprising representa, afinal, Thundercat, Kamasi e Kendrick também não têm muito a ver um com o outro no quesito estético.

Dois singles já deixam muito claro o que Mosley representa enquanto um ato pop: “Abraham”, cujo ritmo do piano de Cameron Graves está remotamente ligado à herança gospel; e “Shadow of Doubt”, que é ancorado em arranjos fortes de sopro, acompanhamento virtuoso da bateria de Tony Austin (coprodutor do disco, com Barbara Sealy) e um refrão deveras pegajoso.

“Young Lion” é fusion-jazz até o osso. “More Than This” é um tipo de blues tradicional ancorado por órgão e poucos metais. Por outro lado, “Tuning Out” é um take progressivo-viajandão, meio Funkadelic, até que descamba para o formato tradicional de canção com a verve inspiradora lá no alto.

“Sky High” é uma das melhores do disco por conta de um preceito básico, que faz com que todos gostem dela: é enérgica em seus estouros, tipo aquela luta de videogame que parece que não vai dar em nada, até que um movimento especial dá uma baita reviravolta no jogo.

Assim como os outros comparsas de LA, Mosley é adepto a um som espirituoso. Geralmente discos com essa característica agradam pela sensação de sinceridade (que nós, enquanto ouvintes, jamais saberemos se é totalmente verossímil).

Os estouros, as distorções, a devoção gospel, a ideia de funk repaginado… Tudo isso está a favor de Mosley, certamente um músico talentoso.

De tão inspiradas que são as canções, nem dá vontade de ficar catalogando o que ele faz quando urra no refrão de “Fire” ou vai do soul ao funk em poucos minutos em “L.A. Won’t Bring You Down”. A versatilidade se enaltece pela técnica, formando um entrelace delicioso de se ouvir.

Enquanto Kamasi batalha pela dianteira do jazz contemporâneo, Thundercat repagina o funk com nostalgia oitentista sci-fi e Kendrick Lamar sobe o topo dos degraus da relevância no rap, Miles Mosley foca a ambição no formato canção, a partir de diferentes fórmulas. Na maioria das vezes elas dão certo, embora os acertos estejam em fragmentos, e não necessariamente no todo.

Muito bom7.5
Tracklist:

01 Young Lion
02 Abraham
03 L.A. Won't Bring You Down
04 More Than This
05 Heartbreaking Efforts of Others
06 Shadow of Doubt
07 Reap a Soul
08 Sky High
09 Your Only Cover
10 Tuning Out
11 Fire

Melhores Faixas: "Abraham", "Shadow of Doubt", "Sky High".
7.5
Artistas Miles Mosley

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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