Crítica: Marcelo Yuka | Canções para Depois do Ódio

Carioca enfatiza o poder da percussão e a força de suas composições nas vozes que vão de Céu a Bukassa Kabengele

Gravadora: Sony
Data de Lançamento: 7 de janeiro de 2017
Avaliação: 9/10

Marcelo Yuka é mais conhecido por ser o principal letrista da fase áurea d’O Rappa do que como baterista. Após ser baleado e ter ficado tetraplégico num assalto, em 2000, rolou algumas desavenças com o grupo liderado por Falcão. Pouco depois, ele surgiu com o F.UR.T.O., numa proposta experimental ao falar das ruas.

Mais de 10 anos após Sangueaudiência (2005), finalmente temos um disco solo de Yuka, em que a composição e a importância dada à percussão ganham dimensões semelhantes.

Canções para Depois do Ódio é pura filosofia de rua, antenada com as apreensões e expressões digitalizadas.

Yuka nunca foi muito fã de ficar à frente dos holofotes, por isso optou por chamar uma enorme gama de convidados. De certa forma, é a maneira que ele encontrou para que o ouvinte captasse a unidade do disco pela composição.

Os colaboradores ajudam Yuka a dar maior alcance às suas ideias. Céu é uma delas, e adentra um vácuo espacial bastante parecido com a nova estética explorada pelo The xx em “Por Pouco”, onde sons fantasmagóricos e sussurros se alternam com percussões.

Seu Jorge também dá as caras em “Cortejo Milenar”, mencionando um ‘folclore do futuro’ como resistência ao ‘lado de lá do muro’ (e acho que qualquer associação com o enredo da série 3% é mera coincidência).

Os colaboradores mais assíduos de Canções para Depois do Ódio são Bukassa Kabengele, cantor que nasceu na Bélgica, cresceu no Congo e faz música brasileira, e Bárbara Mendes, formada em canto jazzístico nos Estados Unidos e parceira de Eumir Deodato.

Canções para Depois do Ódio ostra uma percepção citadina a partir de observações isoladas. “Propõe que o amor é a maior forma de inteligência”, disse o músico

Juntos, eles ajudam a fazer com que as melhores canções do disco ganhem dinâmica (com os barulhos de Yuka inclusos). Esse é o caso de “Confusão”, onde Bárbara enumera situações do cotidiano que levam a equívocos: ‘O povo confunde justiça com vingança/O idiota confunde poder com arrogância‘.

Sozinho, Kabengele ajuda a dar força num dos grandes hinos precoces do disco, “Movimento da Massa”.

A síncope de “Agora Nesse Momento” é excepcional, mas a música só tem envergadura por conta de Cibelle, que não precisa de técnica descomunal para convencer que vem da mesma escola de Gal Costa: ‘Pois precisamos de mais barulho do que bombas/tanto fora, quanto dentro‘, canta, sob uma programação modular que a leva às alturas.

Em tempos em que os singles têm mais potência que álbuns inteiros, Canções para Depois do Ódio cumpre bem a função de entregar diferentes crônicas a cada faixa. No todo, ele mostra uma percepção citadina a partir de observações isoladas.

Essa característica é associada a Yuka desde os primeiros discos de O Rappa; a diferença é que o teor estético – alarmante, cheio de pulsão, urgência e dramaticidade – é mais articulado. Isso ajuda a entender, por exemplo, por que a participação de Black Alien é tão curta em “Dali”. O rapper de Niterói é a voz gritante que reflete a nostalgia e a contraposição à desventura de um pobre no bairro periférico, narrada por Kabengele.

O termo ‘canções’, óbvio, se refere às 16 faixas, mas também pode ser compreendido por um prisma diferente: por cenas.

Yuka parece ter composto a trilha para um filme de Cacá Diegues, em que a preocupação coletiva se torna um caráter individual da obra.

Há aspectos tribais, barulhos coordenados e letras que endossam as posições de poucos opressores e muitos oprimidos. É uma visão que ele carrega há mais de 20 anos, mas o que mudou no contexto social nesse período para que seus versos perdessem relevância?

“Esse disco está sob esse impacto, de ver o mundo dar uma guinada pra trás. E propõe que o amor é a maior forma de inteligência”, disse o músico em entrevista a O Globo.

A riqueza da música de Yuka está na amplitude da visão que ele propõe para o citadino. Enquanto Chico Science se preocupava em perfilar uma Recife antenada na era pré-internet e Mano Brown em externar a raiva do cidadão excluído dos bairros centrais de São Paulo, Yuka engloba tudo isso num sujeito social modernizado, ligado nas redes sociais, puto com o andamento das coisas e injustiçado pela exclusão social. O fato dele ser do Rio de Janeiro é apenas um detalhe.

Ótimo9
Tracklist:

01 O Dia Em Que o Homem se Cansa (part. Bárbara Mendes e Bukassa Kabengele)
02 Assim É a Água (part. Bukassa Kabengele)
03 Movimento da Massa (part. Bukassa Kabengele)
04 Por Pouco (part. Céu)
05 Myto (part. Bukassa Kabengele)
06 Agora Nesse Momento (part. Cibelle)
07 Confusão (part. Bukassa Kabengele e Bárbara Mendes)
08 Até Você (part. Bukassa Kabengele e Bárbara Mendes)
09 Dali (part. Bukassa Kabengele e Black Alien)
10 A Carga (part. Bukassa Kabengele e Vick Lucato)
11 Um Minuto Antes do Fim (part. Cibelle e Fellipe Mesquita)
12 Memórias Artesanais (part. Bukassa Kabengele)
13 A Tempestade (part. Vick Lucato, Fellipe Mesquita, Bárbara Mendes e Bukassa Kabengele)
14 Cortejo Milenar (part. Seu Jorge, Bukassa Kabengele e Fellipe Mesquita)
15 Cidade do Amparo (part. Vick Lucato e Fellipe Mesquita)
16 Algo Mais Explícito (part. Bukassa Kabengele, Bárbara Mendes, Ricô e Vick Lucato)

Melhores Faixas: "Assim é a Água", "Agora Nesse Momento", "Confusão", "Cidade do Amparo".
9
Artistas Marcelo Yuka

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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