Crítica: Kendrick Lamar | DAMN.

Disco ‘urgente’ reforça o poder da representatividade, mas algumas simbologias precisam ser revistas

Gravadora: Aftermath/Interscope/Top Dawg Entertainment
Data de Lançamento: 14 de abril de 2017
Avaliação: 8/10

Quase 5 meses após os norte-americanos elegerem Donald Trump presidente, começou a brotar diversos ‘manifestos musicais’ dia após dia, de Arcade Fire a YG.

O alcance da mensagem propagada por Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly (2015) deixou o holofote piscando para o que ele diria após Trump chegar ao poder.

A crítica sobre a velada guerra racial que culminou no assassinato de pessoas negras por policiais brancos, cujo ápice recente se deu em 2014-2015, provavelmente esteja associada à onda de conservadorismo do cidadão médio que foi às urnas.

Kendrick não precisou retomar esse ponto de partida em seu novo disco, DAMN., porque já está implícito: a comunidade negra (e artística) está insatisfeita com o que veio no mundo pós-Obama.

Mas, será que existe um muro tão grande assim entre Trump e Obama? Ou será que, assim como o muro do México, sua construção será lenta e dolorosa?

Kendrick Lamar e Obama

Quatro meses de governo é um período muito curto, e embora Kendrick mencione Trump apenas uma vez – em “XXX.”, com refrão de Bono Vox (U2) – existe um viés político-partidário no discurso do rapper. Em “XXX.” ele diz: ‘Donald Trump está no ofício/Perdemos Barack Obama e prometemos não duvidar dele de novo‘.

Vale lembrar alguns fatos que colocam Kendrick a favor de Obama: em “Hood Politics”, de 2015, ele disse que gostaria de ver mais as promessas do então presidente sendo cumpridas, mas deu o tapinha nas costas dele ao dizer numa entrevista que concordava com vários tópicos do ex-presidente.

Obama nomeou “How Much a Dollar Cost” a melhor música de 2015, e alguns meses depois convidou Kendrick à Casa Branca em um pedido pessoal.

O contexto pesa: Obama foi o primeiro presidente negro dos EUA, o ‘salvador’ de uma pátria corroída pela crise financeira em 2008, o cara que matou Bin Laden em seu mandato.

Obama, para Kendrick, é um dos seus.

Porém, toda simbologia esconde uma cadeia de acontecimentos que não pode ser varrida para debaixo do tapete. Nesse caso, vale citar o ator Lázaro Ramos: “Eu me apego ao Obama como valor simbólico. Na relação política, acho que ele é um político como qualquer outro”.

Em nenhum momento Kendrick endossa a política de Obama, mas também não diz o que acha sobre a irresponsabilidade do governo dele na condução do conflito na Síria (mais de 400 mil pessoas morreram lá, reflexo da inação de seu governo e dos russos), sobre os recordes de deportações de imigrantes sob sua gestão e sobre o aumento da desigualdade social e econômica – reflexo de uma superação mal resolvida da crise.

Se Trump é desesperança, Obama é o caso que parou na simbologia mesmo. Ou a esperança que não deu certo.

Kendrick Lamar não tem culpa disso. O problema é nosso, que apostamos todas as nossas fichas na consciência de um rapper tido como um dos melhores de seu tempo. Por outro lado, não dá pra ignorar certa ingenuidade ou passividade contida em DAMN. quando o contraponto político que ele sugere a Trump, na prática, não representa bem um contraponto assim. Existe um continuísmo nessa transição, mas tudo bem, ainda é cedo para qualquer análise desse tipo.

Poder da representatividade

Voltemos à representatividade, que é o que mais conta no disco. Desde To Pimp a Butterfly, Kendrick tem lutado para que o negro se perceba e seja compreendido como um sujeito coletivo.

Em “DNA.” ele traça um pouco do perfil desse sujeito coletivo: lealdade, prisão, poder, dor, ambição, fluidez, hormônios. ‘Eu mato coisas porque está no meu DNA’, canta. Ali, ele descreve a própria genealogia, a partir de acontecimentos figurativos.

Esse perfil é baseado na representatividade que Kendrick se tornou, assim como Obama.

Ao assumir contradições, revelar desejos fúteis e chegar à implacável conclusão de que seu DNA se resume a ‘sexo, dinheiro e assassinatos’, o rapper propõe um olhar crítico à história. Trata-se de uma sucessão de possíveis manchetes de jornal, com a representatividade de Kendrick Lamar na capa: o negro estigmatizado que precisa de muito mais esforços para provar sua capacidade.

Nesse sentido, DAMN. questiona o valor dessa representatividade a nível social.

Em “FEEL.”, lamenta que ninguém ore a seu favor, embora ‘o mundo inteiro queira que eu reze por ele’. O ardor é muito bem transpassado pela produção de Sounwave, um dos principais produtores da Top Dawg Entertainment (e um dos artífices de To Pimp). O elo que justifica a falta de fé na humanidade está na também melancólica “PRIDE.”, onde diz: ‘Não amo as pessoas o suficiente para por minha fé nos homens’.

Intros e lentidão

Um detalhe que costuma ser maçante nos discos de Kendrick Lamar são as introduções. Elas são menores em DAMN., mas o fato de ainda existirem incomoda. (Tudo bem que ela surja na primeira música, “BLOOD.”, onde narra um breve encontro com uma garota apática que revela ser a morte.)

Algumas canções têm essa estrutura começa-mas-não-vai, caso de “LUST.”. Por outro lado, essa ideia de ‘lapso temporal’ tem muito a ver com a estética do rap norte-americano hoje. Nomes como Future (que lançou dois discos recentemente) e Young Thug têm apostado numa pegada mais lenta, um som dopado em meio a batidas pulsantes. Isso é perceptível em “GOD.”, onde o rapper adensa as beiradas antes de fortalecer essa dinâmica com seu flow ágil e sagaz.

“DUCKWORTH.” continua nessa lentidão, e vemos essa procura dinamizadora de Kendrick beirar a esquizofrenia. Quem ajudou o rapper a impor versatilidade no meio desse processo foi o produtor 9th Wonder, famoso nas rodinhas de R&B de Mary J Blidge a Anderson .Paak. Ele faz isso da melhor forma: com quebradas nas picapes, como o bom e velho hip hop – o que marca certa distância de Kendrick da musicalidade R&B com traços jazzísticos do disco antecessor.

As mais bombásticas

Ao filtrar o viés partidário e o clima de instabilidade política, o que sobra? Singles potentes.

Com o formato álbum em crise, o single reforça a proximidade do artista com o público. Afinal, ninguém vai querer ouvir toda hora as tergiversações sobre uma América arrasada nas suas playlists – e Kendrick deve ter aprendido isso ao olhar o aspecto vendável de To Pimp a Butterfly, um sucesso da crítica, mas razoável em vendas (não chegou ao Top 10 dos mais vendidos nos EUA em 2015, segundo o instituto de pesquisas musicais Nielsen; foi superado pelos rappers Drake e Fetty Wap, por exemplo).

É parte do modus operandi do rapper trazer canções-holofote – algo que certamente ele aprendeu com Dr. Dre em good kid m.A.A.d. city (2012), tanto que até hoje muitos carros põem no talo “The Recipe”, “Swimming Pools” e “Bitch Don’t Kill My Vibe”.

Essa oferta é diminuta em DAMN., mas existe: a já conhecida “HUMBLE.” tem solavancos daquele som grave oitentista, cortesia de Mike WiLL Made It. O produtor de Atlanta também potencializa a mensagem de “DNA.”, ancorada pelo esquema de repetir o início da frase, apresentando diferentes justificativas (‘I got’, ‘I got’, ‘I got’, ‘I got’). Ela melhora quando ele deixa a saturação sônica invadir sua canção – prova de que Kendrick aprendeu uma coisa ou outra com Kanye West, fascinado desde sempre pela junção ragga-eletro.

“LOYALTY.”, parceria com Rihanna, é a canção com maior potencial de chegar às pistas. Novamente Kendrick se entrega ao compasso atrasado, enquanto o som agudo de fitas com avanços vocais é sustentada como padrão rítmico. Faria mais sentido em ANTI (2016), pelo appeal sexual. Mas é bom que ela apareça em DAMN.: é uma quebra necessária em um disco que já se apresenta como denso.

De início, ela pode não agradar, mas permita o repeat uma ou duas vezes: funciona como nenhuma outra do disco. Boa pras festinhas.

Entre a criatividade e a grandiosidade

DAMN. é um disco que se valoriza pelos detalhes. A busca pelo senso coletivista fez com que Kendrick se voltasse mais às próprias origens que às origens do hip hop.

Se antes havia mais jazz e soul, as variações nas batidas e a interposição das rimas em scratches (“ELEMENT.”) resultaram numa proposta mais DJ-MC, algo que parte dos fãs sentiram falta em To Pimp a Butterfly.

A vantagem é que tanto Kendrick quanto seu time de produtores encontraram soluções mais criativas. Ponto pra ele, que levou em consideração o formato canção em cada uma das 14 investidas de DAMN. Isso se percebe tanto na mais Tupac de suas canções (“FEAR.”), quanto na inesperada parceria com U2 (“XXX.”).

A América ainda é a principal preocupação de Kendrick, e a melhor forma que ele encontra para dialogar com ela é voltando para si mesmo.

Isso não impede que ele se faça entender nos quatro cantos do mundo, mas DAMN. soa apenas como a extensão comunicativa proposta em To Pimp a Butterfly, um disco que, apesar dos elogios, é local demais para a dimensão global que se esperaria.

Eis um bom motivo para questionar se Kendrick é realmente o maior rapper de nosso tempo.

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Muito Bom8
Tracklist:

01 BLOOD.
02 DNA.
03 YAH.
04 ELEMENT.
05 FEEL.
06 LOYALTY." (part. Rihanna)
07 PRIDE.
08 HUMBLE.
09 LUST.
10 LOVE. (part. Zachari)
11 XXX. (part. U2)
12 FEAR.
13 GOD.
14 DUCKWORTH.

Melhores Faixas: "DNA.", "HUMBLE.", "XXX.", " DUCKWORTH.".
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Artistas Kendrick Lamar

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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