Capa do disco 'New Energy', do Four Tet

Crítica: Four Tet | New Energy

Kieran Hebden traça distinta linha evolutiva da eletrônica, alternando técnicas que domina e aprendizados recentes

Gravadora: Text
Data de Lançamento: 29 de setembro de 2017
Avaliação: 7/10

Acabou se tornando um movimento comum nomes da eletrônica britânica darem uma pausa no som das raves 90-2000s para experimentarem com sons mais melódicos. Isso possibilitou ao Four Tet, por exemplo, condensar melhor a influência da ambient-music e, no caso do último EP, Morning/Evening, ir de encontro a ritmos orientais.

Nas duas primeiras faixas de New Energy, “Alap” e “Two Thousand and Seventeen”, ele retoma essas melodias árabes, mas apenas como ponto conectivo a um recomeço, uma nova abordagem ao que não nos furtamos de denominar música das pistas.

Esse recomeço é um trajeto mais progressivo. Kieran Hebden reitera que os detalhes são importantes – e quando falo em detalhes, falo em silêncio, em melodias que parecem nascer de um ponto de ebulição. Assim surge “LA Trance”, encaixando vagarosamente os elementos que formam a essência da música eletrônica.

Esse lento processo de desenvolvimento também toma conta de “Tremper”, até que a reconstituição completa de seu som característico passa a tomar corpo em “Lush” e ganha refrescor em “Scientists” – tanto que já aviso de antemão: quem espera ir logo de encontro à eletrônica modo Four Tet, comece diretamente por estas duas.

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Começos e recomeços

Mesmo com o engate musical dado, Kieran não se detém em dar algumas freadas. É assim que considero a pausa de “Falls 2” e o interlúdio de “You Are Loved”, que encontra o eixo entre o downtempo e o drum’n bass.

O melhor está por vir em “SW9 9SL”, um EDM que parece não ter nada de demais, mas magicamente flui bem, prova do domínio de Kieran daquilo que ele sabe fazer: te colocar pra dançar com passos milimétricos.

O entretenimento, porém, não é a finalidade de New Energy, tanto que Kieran propõe uma conexão cerebral em “Memories” e flerta com o trip-hop na flutuante “Daughter”.

Os desvios de trajetória geralmente são antecedidos por pausas significantes, o que faz de New Energy um exercício de testar novos insights, mesclando os aprendizados já maturados com as recentes experimentações melódicas orientais.

Se o propósito é realmente este, então o resultado mais bem-sucedido do disco é “Planet”, que aproveita os efeitos intergaláticos pertinentes ao tema, fundindo-os às melodias árabes e à batida típica da eletrônica londrina dos anos 1990.

Seja como for, para perceber a intensidade de “Planet” – não por acaso, a última faixa de New Energy – é preciso respeitar as transições, os detalhes e a distinta linha evolutiva traçada por Four Tet. Isso requer enxergar a eletrônica como um gênero que vai além do universo das pistas.

*Confira as críticas de disco de 2017 em uma galeria de fotos

Bom7
Tracklist:

01 Alap
02 Two Thousand and Seventeen
03 LA Trance
04 Tremper
05 Lush
06 Scientists
07 Falls 2
08 You Are Loved
09 SW9 9SL
10 10 Midi
11 Memories
12 Daughter
13 Gentle Soul
14 Planet

Melhores Faixas:"Scientists", "SW9 9SL", "Planet".
7
Artistas Four Tet

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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