Crítica: Curumin | Boca

As falácias do povo, a tramoia dos políticos e o xaveco vêm de onde? Da boca, oras!

Gravadora: Natura Musical
Data de Lançamento: 25 de maio de 2017
Avaliação: 8/10

Músicos brasileiros estão redescobrindo a força da percussão. Curumin é um deles não apenas por ser baterista, mas por dilatar seu peso a ponto de conectar cenas distintas, como a IDM e o funk carioca, por exemplo.

Japan Pop Show (2008) é o ensaio particular do que ele aborda como MPB e Arrocha (2012) tem um estranho reprocessamento da cultura popular dos vários cantos geográficos do país

Muitas bocas

O novo disco, Boca, é mais ou menos a postura de um pintor cubista diante dos infortúnios ao seu redor. Existe um tom político, enrijecido pelos ângulos retos da figura mas que, vistos de longe, propõem uma suavidade devido ao conjunto de cores.

Peguemos, por exemplo, “Boca de Groselha”. A repetição ‘deu brecha, deu bandeira‘ inevitavelmente nos faz lembrar o papel do político que não vê outra opção a não ser corrupto. Indiretamente nos lembra também aquelas discussões superficiais que chegam a esse tipo de declaração: ‘ah, mas se eu tivesse lá também roubava’. ‘E fala besteira‘, diz Curumin, numa levada reggae em meio ao que parecem latas circundantes.

O disco, na verdade, sugere diversas linhas interpretativas para o termo ‘boca’.

“Boca de Groselha” aborda a falácia popular. Já “Boca Cheia”, com um toque latino devido à participação de Indee Styla, relata uma experiência corporal que nos evoca o momento mais íntimo a dois.

Em “Prata, Ferro, Barro”, Curumin rima num dub-funky: ‘Um salto em queda livre/Caiu na boca do dia/O bafo quente me engole/Boca grande me engole/Em ondas navegantes’.

As duas partes de “Boca Pequena” são centradas na corrupção política. Só que, diferente de “Boca de Groselha”, que se põe na posição do eleitor apolítico, Curumin é mais direto ao ponto: ‘Entre o trono de rei/E o banco do réu/Passeia o neo-coronel/Cheio de falsas bandeiras/Apertando maços de garoupa na carteira/Diabinho batucando no ombro/Ele samba na cara da sociedade’.

Na segunda parte, quem assume os vocais é Russo Passapusso, numa espécie de rap quilombola que parece o roteiro de uma animação que relaciona a fuga do bandido político à ignorância, citando reis, tupis e Eduardo Cunha num esquema ágil de entoação.

Looping, caos e ideologia

Curumin disse que Boca não é um de seus trabalhos mais políticos em entrevista ao site Trabalho Sujo, mas não deixa de expressar ironia e indignação com a reação das pessoas.

O início com “Bora Passear” sugere um tom pacífico com o ouvinte, mas não é bem isso que Boca apresenta.

Na ótima “Tramela”, um thriller de soundsystem pesadão em parceria com Rico Dalasam, a música propõe um looping cerebral para mostrar como estamos confusos até mesmo para defender algum tipo de posição ideológica.

A seguinte, “Cabeça”, leva a ideia do looping ainda mais adiante, com uso esparso da bateria e das programações eletrônicas. É tipo um krautrock que vai de encontro ao space-funk e à IDM do Autechre.

Pode não parecer, mas Boca é um disco verborrágico. O aglomero é devidamente orquestrado num tipo de som que parece bagunçado e caótico, mas na verdade revela as incertezas de nossos tempos. Essas incertezas são políticas, sim. Musicais, também. Mas, principalmente, influência das diferentes perspectivas de um contexto nada óbvio.

Muito bom8
Tracklist:

01. Bora Passear
02 O Burguês Que Deu Errado
03 Boca Pequena Parte 1
04 Boca Pequena Parte 2 (part. Russo Passapusso)
05 Prata, Ferro, Barro
06 Terrível
07 O Atrito
08 Boca de Groselha
09 Tramela (part. Rico Dalasam)
10 Cabeça
11 Descendo
12 Boca Cheia (part. Indee Styla)
13 Paçoca (part. Andreia Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó & Max B.O.)

Melhores Faixas: “Boca Pequena (partes 1 e 2)”, “Prata, Ferro, Barro”, “Boca de Groselha”, “Tramela”.
8
Artistas Curumin

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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