Crítica: MarginalS – (disco sem nome)

Trio de música instrumental livre intercala múltiplas referências que enaltecem a virtuosidade de cada um dos integrantes

MarginalS, da dir. p/ esq.: Thiago França, Tony Gordin e Marcelo Cabral

Gravadora: Independente
[rating:4]

Download gratuito pelo site oficial

Então, um disco sem nome, nem mesmo das faixas: apenas com demarcações, para situar o ouvinte. Seria algo arriscado, se não fosse tão divertido. MarginalS, o power trio de ‘música livre’, como eles mesmos definem, é composto por Thiago França (flauta, sax, EWI), Marcelo Cabral (contrabaixo) e Tony Gordin (bateria), que todas as semanas toca em alguma casa de São Paulo com shows repletos de inovações sonoras.

Incrível é descobrir como essa ira é bem coesa: os três acabam se encontrando e entram numa espécie de triângulo onde as linhas, que formam o complemento da figura, fossem conectadas a partir do som

Nada é programado: eles simplesmente chegam lá, fazem, e pronto. Com o disco, aconteceu a mesma coisa. “Ligamos os instrumentos e começamos a tocar [no estúdio]”, disse Cabral em entrevista ao Na Mira do Groove. Todos têm referência e habilidade de seguir diversos rumos: jazz, afro-beat, baião, hip hop (Cabral e Thiago integram a banda de apoio de Criolo, sendo que Cabral foi um dos produtores do disco Nó na Orelha). Ah, e também o rock (Tony é irmão de Lanny Gordin, o um dos principais guitarristas da Tropicália). E mais um monte de gêneros.

No “prólogo”, eles procuram algo meditativo, evidente nos solos espaçosos no sax de Thiago e no looping calmo na bateria de Tony. Em “parte 1, parte 1”, Thiago convida a trupe para um groove balançado, como se tocasse a campainha para chamar a rapazeada para a fuzarca. Cabral vai respondendo com um groove contido de início, que entra em transe em “parte 1, parte 2”, dando ideia do que pode vir daí. Aqui, tem um pouco de Dave Holland e de Jaco Pastorius, até que Tony entra no clima com uma pegada de acid jazz que garante a libertinagem necessária para que Thiago abuse nos efeitos do EWI e das flautas.

Antes de entrar a segunda parte, há uma intermissão, momento em que percebemos que os músicos estão trocando de instrumentos enquanto o REC ainda está ligado. Aqui, o MarginalS entra para algo mais amazônico, tal qual um Hermeto Pascoal (essa referência Thiago explorou bem no disco Metá Metá, com Kiko Dinucci e Juçara Marçal); Cabral utiliza o arco para deixá-lo com uma sonoridade de violoncelo e a flauta de Thiago navega pelas profundezas de um mar límpido, calmo, sereno. É como se eles decidissem explorar novos campos a partir deste momento no disco.

E é o que realmente acontece: em “parte 2, parte 1”, o MarginalS centra a atenção nas ruas e parte para um som bem mais suingado. Há um flerte com o highlife, gênero africano popularizado em Gana por grupos como African Brothers Band e E.T. Mensah, principalmente pelas matizes quase fluorescentes do instrumento de sopro. Em “parte 2, parte 2”, Gordin traz algumas referências da bateria fusion do excelente Tony Williams, com viradas que dialogam com as incursões de Thiago (que se destaca como um Ornette Coleman enfurecido), enquanto Cabral providencia uma cadência difícil de pegar. Incrível é descobrir como essa ira é bem coesa: os três acabam se encontrando e entram numa espécie de triângulo onde as linhas, que formam o complemento da figura, fossem conectadas a partir do som. Fica melhor ainda quando se descobre que tudo é feito na base do improviso.

Não dá pra explicar: talvez a coisa mais natural a se fazer é não nomear nada mesmo. “Não queremos holofote, queremos a rua, queremos as pessoas”, disse Thiago França. Isso faz todo o sentido.

Melhores Faixas: para entender o conceito do disco, é necessário ouvi-lo inteiro. Mas os melhores momentos estão em “parte1, parte 2”, “intermissão, parte 1” e “parte 2, parte 2”.

Para fazer o download do disco sem nome do MarginalS, clique aqui.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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