Crítica: Lucas Santtana – O Deus Que Devasta Mas Também Cura

Não há a procura por renovação estética como nos trabalhos anteriores, mas no quinto disco o músico evidenciou seu lado compositor

Gravadora: Diginois
[rating:4]

Vez ou outra a música brasileira parece sofrer calada com a falta de um músico como Lucas Santtana, experimentador nato que já ampliou possibilidades com texturas eletrônicas desde seu primeiro disco, Eletro Ben Dodô, até chegar a distorcer as cordas da música popular de forma a buscar uma nova identidade brasileira em Sem Nostalgia, de 2009, um dos discos mais arriscados em anos.

01 O Deus Que Devasta Mas Também Cura
02 Músico
03 Jogos Madrugais
04 É Sempre Bom Se Lembrar
05 Se Pá Ska. S.P.
06 Ela É Belém
07 Vamos Andar Pela Cidade
08 Para Onde Irá Essa Noite?
09 Dia de Furar Onda no Mar
10 O Paladino e Seu Cavalo Altar


Lucas não quis desconstruir nada em seu novo registro, O Deus Que Devasta Mas Também Cura, mas também não ergue um bloco de renovação estética. Sua nova preocupação é com a crônica, mas não espere neologismos à lá Guimarães Rosa, escritor conterrâneo que muito admira.

Aqui, a crônica tem um sentido de contar algo que viu, mas sem evitar pequenas pitadas de trilhas de ficção científica. O músico deu liberdade à sua prosa e deixou-se levar pela forma tácita de compor com letras. Na faixa-título, o músico confessou que estava no Rio de Janeiro quando uma tempestade ameaçava varrer toda a cidade. A música já havia sido apresentada no disco de Gui Amabis, mas aqui ela ganhou arranjos orquestrais que parecem ambientá-la no cinema nouvelle vague.

Aos seus ouvidos, pode parecer que Lucas não foge da boa turma da nova música brasileira que explora novas estéticas, que aproximam ritmos que vão do tecnobrega ao samba. Isso fica evidente quando se descobre que Céu, Guizado, Kassin, Curumin, Letieres Leite & Orquestra Rumpilezz e os irmãos Gui e Rica Amabis participam do disco. Só que, olhando em retrospecto, O Deus Que Devasta… representa um novo capítulo na trajetória de Lucas. Pode não ter nada de novo para nós, mas o disco é repleto de bons momentos.

“Jogos Madrugais” fala de ansiedade, temperado por riffs ágeis de Gustavo Benjão e arranjos que provocam tensão da Orquestra Jovem Sinfônica SSA. Em seguida, entra “É Sempre Bom Se Lembrar”, um flerte pop que exemplifica o amor nas coisas simples mas que “no decorrer fica confuso”. Esta é a canção mais notável (o que não quer dizer ‘a’ melhor) do álbum, e você sairá cantando com facilidade a partir da segunda audição.

“Se Pá Ska. S.P.” não é nenhuma ode à capital paulistana, mas é uma das composições mais realistas sobre a cidade. Quem anda de ônibus, carro, a pé ou de metrô pela metrópole sabe muito bem: “É só sair na rua e ter a sensação/De que somos sós desde a barriga até o caixão”. (Quando Criolo tocou com Caetano Veloso no VMB a canção “Não Existe Amor em SP”, deixou transparente uma certa estranheza. Com esta letra aqui, haveria duas possibilidades de reação de Caê: ou veria o reinado de sua “Sampa” ameaçado, ou congratularia Lucas Santtana por descrever a cidade com tanta unicidade – que fica melhor ainda com a dupla de sopros de Leandro Joaquim, no trompete, e Marco Serragrande, no trombone.)

Mesmo que as letras de Lucas não sejam tão óbvias, dá para perceber o gosto do músico com o movimento das cidades, seja na festança em Belém do Pará (com o tecnobrega-dub de “Ela é Belém”) ou a calmaria de alguma cidade litorânea cantada em “Dia de Furar Onda no Mar”, escrita com seu filho Josué que traz trechos (valiosos, como “contemporâneo é alguém sem coração”) do livro ABC do Josué. Sem deixar de mencionar a instrumental “Vamos Andar Pela Cidade”, um jazz que agradaria Duke Ellington pelos espaçamentos orquestrais e pela permanente levada rítmica.

Nem nos covers Lucas decepciona: em “Músico”, de Tom Zé, Herbert Viana e Bi Ribeiro, ele chama Céu e deixa sua voz séria em contraste com os arranjos eletrônicos e as guitarras praieiras de Gustavo Ruiz; “O Paladino e Seu Cavalo Altar” é uma versão personalizada de “This Is Not the Fire”, do grupo My Tiger My Timing. A guitarra em eco faz uma intersecção com Sem Nostalgia, mas Lucas Santtana dá um tom dançante com forte pegada dub com as cartas certas para se fazer necessário mais uma vez, só que de outra forma. Não é a música brasileira que precisa de Lucas Santtana – são os ouvintes brasileiros que precisam de Lucas Santtana.

***

A seguir, ouça O Deus Que Devasta Mas Também Cura na íntegra. Para fazer o download, visite a página no Facebook do Lucas Santtana.

Melhores Faixas: “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, “Jogos Madrugais”, “Se Pá Ska. S.P.”, “O Paladino e Seu Cavalo Altar”

Artistas Lucas Santtana

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


Mais artigos para você:


Sem Comentário

Adicione um comentário