Crítica: Blitz The Ambassador – Diasporadical

O mundo clama pelo diálogo cultural, e o rapper ganês entrega isso após viajar por 9 países (inclusive Brasil)

Gravadora: Jakarta
Data de Lançamento: 16 de dezembro de 2016

Desde o ano passado, Hugh Masekela e M.I.A. deram pistas de que a música diaspórica, ou seja, aquela que trata de imigração, culturas se entrelaçando e linguagens em conexão, passa por uma renovação.

O contexto internacional de Brexit, Trump no poder e ditadores sem receio de discursos genocidas despertou um novo sentido de urgência na música atual.

Quando se mudou de Gana para estudar no estado de Ohio, nos Estados Unidos, Blitz the Ambassador já ambicionava fazer carreira com um tipo de rap social, tendo como ídolos Rakim e Chuck D.

Mais de 10 anos após sua estreia com Soul Rebels, o mundo mudou, e Blitz também. Além de conectar as referências da música de Gana, além da essência da musicalidade africana como um todo, com percussões, multilinguagem e canções que enfatizam a importância do entrecruzamento cultural, sua música adquiriu enorme relevância só por existir em 2016.

Antes de ir a fundo em Diasporadical, é importante saber por que líderes de grandes nações, como EUA e Reino Unido, têm se tornado tão conservadores – dando início a uma onda que pode arrastar França e Alemanha, por exemplo.

Jocelyne Guilbault, especialista em cultura africana da Universidade da Califórnia em Berkeley, disse que no campo musical o termo diaspórico está “conectado a uma crescente preocupação de que a mudança nas estruturas do poder pode levar à fragmentação das tradições dominantes estabelecidas pelo mercado”.

Mesmo sem citar diretamente políticos, o fato de apenas sugerir uma intersecção cultural já é um ato político em si, porque contesta o domínio de uma cultura sobre a outra.

As novas tecnologias favorecem esse diálogo, e Blitz the Ambassador fez questão de usar tudo isso a seu favor em Diasporadical.

Preocupado com as imigrações no continente onde nasceu e com a descaracterização de bairros, regiões e culturas da costa brasileira (processo conhecido como gentrificação), ele percebeu que a melhor forma de preservar tudo isso é dialogar, manifestando-se pela música.

“Abordei essa questão criando material que possa existir em várias formas, para expandir a vida do álbum ao máximo possível”, disse o rapper ao BandCamp Weekly. Para isso, ele combinou vídeos, para registrar ao máximo possível esse entrecruzamento. “É uma maneira de as pessoas consumirem o álbum dentro de seu próprio mundo, por assim dizer”.

Esteticamente, Diasporadical tem jazz africano, música caribenha, hip hop norte-americano e ragga. Ah, e onde entra o Brasil? Diria que no soundsystem de “Long Time”, gênero que pode não ter nascido em nossas terras, mas certamente tornou-se uma das conexões mais modernas da nossa música com o mundo (Duas Cidades, de BaianaSystem, que o diga!).

O brasileiro convidado a participar do disco é Kamau. Em “Ogya”, uma base soturna vai abrindo alas para um som afrorreligioso, entrecortado por rimas que conectam o urbano brasileiro ao urbano do mundo: ‘Mais uma ponte se forma do que nossas ideias tecem‘, rima o rapper paulistano, dando a entender que as preocupações do que passamos por aqui, enquanto cidadãos de grandes metrópoles, não são tão diferentes de cidadãos de outros países.

Blitz disse que teve que viajar por 9 países para lapidar a ideia de Diasporadical.

Dizer que é um álbum de rap talvez soa injusto com todo o diálogo que ele criou para sua obra.

“Shine” nos lembra como seria se a Jamaica tivesse sido impactada por mais tempo por Damian Marley; sua base musical, entretanto, veio de uma música do Mali.

“Heaven” diz que a liberdade deve ser conquistada, e não aguardada, com uma produção que me remonta ao Antibalas, enquanto “A(Wake)” é um clamor para que todas as pessoas que estão e manifestando ao redor do mundo se apoiem. “A canção é minha maneira pessoal de lidar com as coisas onde estamos, desde o Black Lives Matter até o movimento Taxas Devem Cair (Fees Must Fall), na África do Sul, e os protestos afrobrasileiros durante os Jogos Olímpicos”.

Blitz expressou um conhecimento sobre a miscigenação brasileira que muitos daqui não fazem nem ideia. “O Brasil é uma nação de língua portuguesa com 90 milhões de negros que foram cortados de suas conexões afro-latinas e afro-americanas”.

Diasporadical não terá o efeito imediato de fazer com que os que não conhecem a riqueza da música local passem a mudar de comportamento. Mas, joga luz a uma problemática cultural que tem se tornado ofuscada com o clima de conturbação política em todo o mundo.

Só por existir, Diasporadical já é importante.


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Muito bom8
Tracklist:

01 Act I
02 Hello Africa
03 Shine
04 Juju Girl
05 Act II
06 Heaven (ft. Tumi)
07 Ogya (ft. Akua Naru, Kamau)
08 If Dem No Know (ft. M.anifest)
09 Act III (ft. Somi)
10 Long Time Coming (ft. Patrice)
11 A(Wake)
12 Epilogue
13 Running

Melhores Faixas: "Shine", "Ogya", "A(Wake)".
8

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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