Capa do disco Utopia, de Björk

Crítica: Björk | Utopia

A positividade é a resolução encontrada pela islandesa para lidar com a obscuridade dos tempos atuais

Gravadora: One Little Indian
Data de Lançamento: 24 de novembro de 2017
Avaliação: 8.5/10

Uma das principais características da obra de Björk trata-se de coexistência. “Sempre acreditei muito em polaridade”, disse a cantora islandesa à FACT. “Em oposições polares. Não temos que escolher entre natural e urbano, não é esse o ponto. Por que escolher? Eliminar as coisas não é natural”.

Esse princípio dá um panorama geral da transição entre Vulnicura (2015), um despejo emocional após o término de um relacionamento com o artista plástico Matthew Barney. Para o novo disco, Utopia, ela retoma a força de um sentimento positivo para lidar com as adversidades do mundo.

Se o disco anterior ela potencializou o uso de cordas, em Utopia ela volta a uma de suas bases musicais antes mesmo de fazer sucesso com os Sugarcubes: a flauta.

Como é de costume em discos de Björk, ela levou esse elemento a uma intensidade que beira a obsessão.

Junto ao som pacifista da flauta, vieram sons de pássaros (muitos deles da Venezuela, país de origem do parceiro Arca, com quem divide os créditos de todo o álbum) e orquestrações flutuantes. Sua voz, em muitos casos, simplesmente acompanha as preconcepções sonoras.

*Inscreva-se no nosso canal do YouTube

Conexões e perdas

Por mais que pareça secundária, a voz tem um papel importante em Utopia. Na primeira canção, “Arisen My Senses”, células e ‘www‘ formam as múltiplas conexões do que entenderíamos como o ser hiperconectado – afinal, a cantora disse que Utopia é seu ‘disco Tinder’.

“Blissing Me” fala da obsessão de enviar texto um para o outro com um escopo de cordas, e a já conhecida “The Gate” tem como pano de fundo uma orquestra de mais de 15 flautistas mulheres, contrastando-as com um clima recluso das batidas de Arca.

A respiração e o silêncio somam-se como elementos importantes de uma canção sintomática, que fala sobre importar-se com o outro. É o mais óbvio exemplo de como Björk faz uso do positivismo, mas não sem deixar algumas marcas indeléveis para trás. ‘Apenas mais quebrada do que normal’, divaga a cantora. Nem tudo é perfeito, e é melhor entender que não tem que ser assim.

“Body Memory”, uma das melhores canções do disco, foi composta por Björk para, depois, receber os efeitos de Arca. Dá pra perceber a diferença de abordagens utilizadas: o tom mais orquestral vem da islandesa, enquanto as ruminações obscuras, que parecem ter sido pensadas dentro de uma caverna, são coisas do venezuelano.

Esse clima destrutivo também impera em “Losss”, um processo de cura pós-Vulnicura: ‘Suavidade é meu peito, ele não permite perda/A perda me faz odiar, não enrijece da dor‘. O tema tem a ver com a experiência da ruptura de um relacionamento. Para lidar com isso, Björk sugere não perder a fé (porque sua ausência ‘inflama os sobreviventes’) e seguir adiante sem olhar muito pra trás: ‘Eu perdoo, o passado é escravidão/A liberdade é afrodisíaca’. Em meio a tudo isso, o som entra numa erupção que lembra as canções mais marcantes de Biophilia (2011).

Coexistir para encontrar a paz

Na segunda metade do disco, mais uma vez aplica-se o termo ‘coexistência’. Coexistência estética, no caso. Os muitos estouros da música industrial flertam e dão outro significado às onipresentes flautas do disco.

Os efeitos, claro, são diversos. Em “Sue Me”, o que prepondera é um clima de vigorosa tensão. “Tabula Rasa” parece o som que emana das nuvens, de tão límpida que é.

Se a sonoridade orgânica é reforçada para representar que o positivismo prevalece, pode-se dizer que Utopia é uma abordagem mais que bem-sucedida. Mesmo porque o que importa mais, aqui, é o aspecto quase sobrenatural do instrumento. Para isso, ele tem apoios, é multidirecional – tal qual a necessidade humana de ter apoio de diferentes lados para se manter otimista.

Está exatamente aí a força de Utopia. Olhar com bons olhos para o futuro é a melhor forma de encarar uma realidade polarizada, decepcionada, em crise.

Há muitos elementos a nosso redor que nos dão forças para seguir adiante: seja a natureza, a conexão com as pessoas pelas redes sociais, a música, a respiração, a convergência de culturas.

Tal qual um romance de seu tempo, Utopia fantasia a realidade a partir de elementos que ela nos oferece. São elementos intangíveis, como o amor, a conexão em rede, a maturidade – ainda assim, elementos possíveis.

Como disse a cantora ao New York Times, “este álbum é uma ideia, uma sugestão, uma proposta de como o mundo deveria ser”. Com muitos tons acinzentados, mas predominantemente colorido.

*Confira as críticas de disco de 2017 em uma galeria de fotos

Ótimo8.5
Tracklist:

01 Arisen My Senses
02 Blissing Me
03 The Gate
04 Utopia
05 Body Memory
06 Features Creatures
07 Courtship
08 Losss
09 Sue Me
10 Tabula Rasa
11 Claimstaker
12 Paradisa
13 Saint
14 Future Forever

Melhores Faixas: "The Gate", "Body Memory", "Losss", "Saint".
8.5
Artistas ArcaBjörk

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


Mais artigos para você:


Sem Comentário

Adicione um comentário