Crítica: Big Boi | BOOMIVERSE

Rapper do Outkast trafega por trap, rap clássico e eletrônica – variedade que acaba escondendo sua unicidade

Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 16 de junho de 2017
Avaliação: 6/10

Pelo menos desde Stankonia (2000) ficou muito claro que André 3000 representava mais da metade do carisma do Outkast. Talvez isso tenha levado a um desinteresse crescente na obra de Big Boi, tão importante na produção e nos elementos de um dos maiores grupos de rap da história, como nos caminhos trilhados em sua trajetória solo.

Sir Lucius Left Foot (2010) entra facilmente numa lista precoce de melhores discos da década por condensar entretenimento, funk futurista e arranjos dotados da grandiosidade de um Nas/Jay Z que, se por um lado foram abandonados por contemporâneos e ‘novatos’ da cena, por outro foram glorificados quando um tal de Kanye West saiu pregando um trono abstrato em suas composições ególatras.

Big Boi ainda ganha um ponto a mais por testar ritmos desafiadores em Vicious Lies and Dangerous Rumors (2012), mas decidiu que era hora de fazer diferente em seu novo álbum, BOOMIVERSE.

Investidas estéticas

Há muitas tentativas aqui. De se associar ao movimento musical de Atlanta (do qual é um dos maiores precursores, vale lembrar, mas talvez não se encaixe bem na mesma prateleira de um Gucci Mane ou Young Thug, como mostrou a pouco espirituosa “In The South”). De buscar uma veia mais pop ao lado do coringa Snoop Dogg, em “Get Wit It”. E de dar continuidade aos crossovers com vocais orientais do disco anterior, “Kill Jill”, que vê sua potência absorvida pela presença de Killer Mike (que, vale lembrar, foi apresentado ao mundo ao tocar em “Snappin’ and Trappin'”, de Stankonia).

Uma breve análise da obra de Big Boi nos leva a entender que BOOMIVERSE seria o resultado esperado de um rapper que compreende o hip hop como o último fruto de uma linha do tempo mais ou menos assim: funk-70-disco-80-rap-90.

O tão falado trap, cuja filial é Atlanta, tá no meio dessa ‘evolução’ de Big Boi, como na mencionada “In The South” e em “Follow Deez” – claro que muito mais pelas participações do que pelo esquema de rimas de Big Boi em si.

Batidas sinistras, tiros e até rimas sobre tretas de gangues formam esse lado trap de Big Boi, mas seu esquema rítmico tem trânsito por muitos outros formatos.

Em “Mic Jack”, por exemplo, ele faz o que chamaria de ‘rap de salão do século XXI’, com elementos da eletrônica – e uma participação inevitável de Adam Levine (Maroon 5) no refrão que deu certo. Os pianos de “All Right” lembram trilhas da Disney, e ela se fortalece justamente pelo conforto que propõe: pode por no carro em alto volume que é sucesso!

Abordagem vs. nostalgia

No quesito linguagem, BOOMIVERSE convence ao mostrar Big Boi como um dos rappers da ‘geração anterior’ que trafega livremente dentro dessa expressão atual mais crua.

Do ponto central entre DJ Khaled e Future há um turbilhão de nostalgia à lá Outkast, experimentos com a eletrônica (“Overthunk” e “Chocolate”) e diversas abordagens do funk norte-americano.

Só que, mesmo com toda essa variedade, a impressão é que BOOMIVERSE não vai muito além de um álbum esperto daquele cara do Outkast.

Bom6
Tracklist:

1. “Da Next Day”
2. “Kill Jill” (part. Killer Mike & Jeezy)
3. “Mic Jack” (part. Adam Levine)
4. “In the South” (part. Gucci Mane & Pimp C)
5. “Order of Operations”
6. “All Night”
7. “Get Wit It” (part. Snoop Dogg)
8. “Overthunk”
9. “Chocolate”
10. “Made Man” (part. Killer Mike & Kurupt)
11. “Freakanomics” (part. Sleepy Brown)
12. “Follow Deez” (part. Curren$y & Killer Mike)

Melhores Faixas: “Mic Jack”, "All Night", “Chocolate”.
6
Artistas Big Boi

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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