Crítica: Arcade Fire | Everything Now

Uma banda que quer abranger seu público, mas conversa apenas com parte dele. Culpa do choque geracional

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017
Avaliação: 7/10

O Arcade Fire nunca tinha sido tão direto: em seu 5º álbum, Everything Now, a banda canadense traça um perfil dos tempos atuais a partir do choque geracional.

Com os integrantes na idade dos trinta e poucos, não haveria período mais adequado para falar sobre o tema.

Os elementos já estão justapostos: internet, smartphones e shoppings já foram situados em trabalhos anteriores – especialmente em The Suburbs (2010).

Em Everything Now, porém, a banda se atenta mais às consequências e às efêmeras conclusões que se têm de uma geração que escapa, possivelmente, ao público-alvo da banda: a geração Z.

Revendo a grandeza

Não há nenhuma distinção de idade, comportamentos ou costumes no disco, mesmo porque o Arcade Fire hoje em dia conversa com milhões. Faz parte de uma banda de grande alcance evitar qualquer delimitação temática, em busca de se identificar com o maior número de pessoas possíveis.

O que muitos chamam de ‘grandeza’ da banda, na verdade, só faz sentido dentro do âmbito do próprio rock. Em termos comparativos, nenhum hit do Arcade Fire ultrapassa singles megapopulares de Major Lazer ou até mesmo de MC Fioti.

Noutras palavras, o Arcade Fire é grande apenas dentro do nicho ao qual pertence.

Mesmo assim, é necessário se submeter a algumas adequações para a expansão de público. As músicas de Everything Now, por exemplo, possuem mais padrões repetitivos: em “Signs of Life” tem até palminhas batendo, ora pois.

Essa influência vem de diferentes vertentes da música eletrônica. Everything Now foi produzido por Geoff Barrow (Portishead) e Thomas Bangalter (Daft Punk), que ajudaram a esticar o espectro sonoro da banda para um rock conectado à world-music.

Tudo bem que a faixa-título possa ter ficado com a pecha de parecer demais com o Abba, mas é essa elasticidade que levou à melhor aproximação com o reggae que a banda poderia ter, em “Chemistry” (embora falte aquele experimentalismo dub que dera tão certo em “Flashbulb Eyes”), ou brincar com as possibilidades do trip-hop, em “Peter Pan”.

Sim, mas e o tal do choque geracional?

À medida em que pessoas entre 20 e poucos e 30 e poucos faz da arte um tipo de expressão para reclamar da solidão de um mundo globalizado, está posto o choque.

Em “We Don’t Deserve Love”, por exemplo, o vocalista Win Butler menciona a solidão depois do rolê, com música ruim no rádio do carro e o risco de passar por uma blitz (‘meu hálito não é meu único pecado‘, diz a canção em que a banda foi mais a fundo na crise existencial). As brigas familiares geram afastamento dos pais. O narrador diz: ‘não merecemos amor‘.

Seria o reflexo de uma geração mimada demais, em que o amor tornou-se um sentimento banal, ou fugimos demais das expectativas de uma geração anterior à nossa?

Tais conflitos geracionais estão ali nos detalhes. Pais que brigam: geração X, cujos papéis são bem definidos, com o pai que trabalha fora, a mãe que cuida dos filhos, e as brigas incessantes pela falta de diálogo. Garoto no carro: geração Y, onde expectativas são destroçadas em uma realidade extremamente competitiva, provocando niilismo diante da pressão de ser mais bem-sucedido que pais, avôs e bisavôs.

A geração Z, de pessoas que já nasceram conectadas ao mundo da internet, é descrita em “Signs of Life”: ‘Primeiros beijos têm gosto de cigarro/(…)Mais uma vez, você perdeu seus amigos‘. Nesta canção, a banda fala repetidamente de pessoas procurando sinais de vida, como se só as enxergasse pela tela.

Não é de hoje que o Arcade Fire menciona que as relações humanas dependem de contato físico, e que o domínio da tecnologia só nos têm afastado desse contato. “Signs of Life”, porém, esbarra na interpretação rasa de achar que a interação digital nos torna menos humanos. Deve ignorar a pesquisa de teóricos sérios, como Anthony Turner, que concluiu que muito desse uso digital faz parte das relações humanas dessa geração. (Esse desdém com a geração mais nova é perpassado em “Put Your Money On Me”, que parece uma mensagem aos jovens youtubers com pretensão de empreendedores.)

Esse revés, porém, é compensado pelo olhar delicado de “Creature Comfort”, que fala de temas como suicídio e bullying na adolescência. ‘Apenas faça com que seja menos doloroso’, roga a banda, num tipo de som que conecta Primal Scream a LCD Soundsystem. Ela é nevrálgica, curta, uma porrada.

Preço de ser pop

Como um todo, porém, Everything Now resulta em estranha coesão. Sem a riqueza musical de Reflektor (2013) ou o apelo temático de The Suburbs, pode-se dizer que as escolhas tinham, sim, uma mira de grandiosidade. Percebe-se um compêndio de tudo que a banda já entregou antes dentro dos 47 minutos mais desafiadores de uma banda que pretende lotar estádios.

A vantagem de atos pop é que eles são favorecidos pelos singles. Nisso, Everything Now tem mais potencial que seus antecessores, vide os elementos de repetição, a dinâmica dos timbres com os riffs de guitarra e, claro, os refrões pegajosos da faixa-título, de “Chemistry”, “Signs of Life”.

Se deixou ou não os preceitos indie após assinar com uma grande gravadora, como a Columbia (da Sony), isso pouco importa.

O Arcade Fire endossa sua relevância a cada lançamento. Só precisa rever alguns conceitos que encara como axioma desde Funeral (2004) e observar com mais agudeza onde esse choque geracional vai nos levar. Dito isso, continua sendo uma banda entre 20 e 30 e poucos conversando com um público de 20 e 30 e poucos.

Bom7
Tracklist:

01 Everything_Now (continued)
02 Everything Now
03 Signs of Life
04 Creature Comfort
05 Peter Pan
06 Chemistry
07 Infinite Content
08 Infinite_Content (2)
09 Electric Blue
10 Good God Damn
11 Put Your Money on Me
12 We Don't Deserve Love
13 Everything Now (continued)

Melhores Faixas: "Creature Comfort", "Chemistry", "We Don't Deserve Love".
7
Artistas Arcade Fire

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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